Por que o ex-prefeito José Auricchio Júnior quebrou São Caetano do Sul financeiramente em R$ 1,15 bilhão? Fontes ouvidas pela Folha revelam o que há por trás da trama.
O rombo contabilizado nos caixas municipais é de R$ 1,15 bilhão. Dinheiro que está faltando na Saúde, na Educação, no Social, entre outras áreas, para o prefeito Tite Campanella. A fatura foi mais uma “obra” do chefe do Executivo por 16 anos José Auricchio Júnior, especialmente no último ano do seu quarto mandato, 2024. A Folha de São Caetano ouviu 6 fontes com conhecimento dos detalhes dos bastidores tanto de mais de um mandato de Auricchio, do governo Tite e do que acontece na Câmara. Com a condição de não terem seus nomes revelados, por temerem represálias, elas revelaram o plano secreto do ex-prefeito.
A expressão “enriquecimento ilícito” é citada pelos 6. Mas todos carecem de provas, portanto é impossível cravar como verdadeira essa versão, embora Auricchio e seu irmão Marcelo, que sempre foi seu operador, tornaram-se grandes empreendedores da construção civil – e o então prefeito, um “amigo” do setor, com legislação favorável em todos os seus mandatos, enquanto deixou os pobres nos cortiços, pagando taxa do lixo com valor estratosférico.
O que Auricchio fez foi apenas ceder o terreno para a construção do conjunto habitacional na Prosperidade, com 97 unidades, obra do Governo do Estado. “Ele hoje é um megaempresário”, disse uma das fontes, que circulou muito pelo Gabinete nos 16 anos de Auricchio no poder.
Agora, o relato da trama política revela um plano secreto: asfixiar Tite financeiramente, montar narrativas e criar obstáculos jurídicos por meio de denúncias fraudulentas em todos os órgãos possíveis, dificultar a realização de licitações, paralisando ainda mais a Prefeitura, tudo para derrubar o prefeito.
“O esquema começou a ser montado desde que houve a definição da candidatura. Auricchio sempre foi muito próximo dos fornecedores da Prefeitura, tanto que os recebia às quartas-feiras na chamada Casa, primeiro na rua José Benedetti, depois na Floriano Peixoto”, diz outra fonte, que frequentou vários desses jantares regados à comida e bebida de primeira. “Ali ele começou a empurrar as contas com a barriga, dizendo aos fornecedores para cobrarem de Tite as dívidas atrasadas que São Caetano já tinha”, narra.
Sem Tite no caminho, quem assumiria seria Regina Maura Zetone, vice enfiada goela abaixo do atual prefeito e aliada de Auricchio até debaixo d’água desde priscas eras. Não se levando em conta o coeficiente “traição” no processo, o tetraprefeito teria uma espécie de quinto mandato à disposição, como parte do governo ou como eminência parda. “Ele está usando as mesmas táticas que usou com Paulo Pinheiro. Mas, ao contrário do que aconteceu de 2013 a 2016, dessa vez houve reação”, conta uma das fontes, que já foi conselheiro de todos os envolvidos nessa trama, entre outros do passado. “Ele é muito frio e cerebral. Sabe agir como cirurgião que é. Mas a política não é um hospital”, compara outro agente político influente com quem a Folha falou.
Parte da base de Tite na Câmara soube do plano e levou o caso a portas fechadas com ele. O prefeito teria dito que já desconfiava de algumas movimentações de Auricchio, e que estava preparando sua bateria de defesa. Foi quando três parlamentares sugeriram a criação de uma CPI, para revelar e levar denúncias dos desmandos financeiros de Auricchio. Tite não colocou obstáculo, e o vereador Marcel Munhoz apresentou o requerimento, que quer levantar inclusive se houve má-fé do ex-chefe do Executivo. Votada e instalada em junho.
Só que Auricchio não desistiu ainda de seu plano, que a partir desta matéria baseada em relatos de fontes acima de qualquer suspeita, deixa de ser secreto. Ele não acredita que vá ser prejudicado pela CPI (assim como acreditava que não iria parar no TSE as denúncias eleitorais que o deixaram um ano fora do cargo, em 2021). O ex-prefeito se sente um iluminado, com muita sorte. Por isso, segundo as 6 fontes ouvidas pela Folha, ele continua seus passos traçados desde 2024. “Ele se acha inalcançável. Tem certeza que tira Tite do cargo. Por isso, graças à ação da Câmara, algo deve ser feito. Mas mais rápido do que está”, alerta um observador político de grosso calibre.


